Para muitos, manter uma alimentação vegana no Japão pode parecer uma tarefa impossível. A cultura alimentar japonesa, o idioma e a falta de informação clara em produtos e restaurantes são barreiras reais. Mas com preparo, ferramentas certas e conhecimento, é possível viver – ou viajar – pelo Japão sem abrir mão do veganismo.
Embora o Japão não tenha uma cena vegana tão desenvolvida quanto outros países, há avanços visíveis nos últimos anos. Pessoas que seguem esse estilo de vida há décadas mostram que, com esforço, é possível sim manter uma alimentação livre de ingredientes de origem animal no país.
O desafio dos ingredientes de origem animal
A base da culinária japonesa tradicional é o dashi, um caldo usado em diversos pratos. Embora exista o kombu dashi, feito com algas, o mais comum é o katsuo dashi, à base de peixe. Com isso, até alimentos que parecem veganos, como missoshiru ou tofu, costumam conter peixe ou serem finalizados com flocos de bonito seco.
Mesmo opções geralmente recomendadas a veganos, como a culinária de templos budistas (shojin ryori) ou hospedagens em templos (shukubo), às vezes incluem pó de peixe em suas receitas – algo que surpreende quem acredita estar consumindo pratos totalmente vegetais.
Como contornar a situação?
A melhor forma de lidar com isso é ter ferramentas à mão. O aplicativo e site HappyCow lista mais de 300 restaurantes veganos no Japão e cerca de 1.400 vegetarianos ou veganos-friendly. Também vale conferir o portal Vegewel, que reúne sugestões de restaurantes em japonês e inglês.
Se for viajar pelo interior do Japão, onde as opções são limitadas, é recomendado encomendar bentôs veganos com antecedência em restaurantes das grandes cidades. Grupos no Facebook, como Tokyo Vegan/Vegetarian Friends Club, também ajudam a encontrar bairros com maior concentração de estabelecimentos veganos. E, se possível, opte por hospedagens com cozinha, para preparar suas próprias refeições.
Quem busca algo mais prático pode considerar reservar um tour vegano, por meio de serviços como Foodie Adventure Japan ou Magical Trip.
A dificuldade com rótulos de produtos
Ler ingredientes no Japão é um desafio. Os rótulos são, em sua maioria, escritos apenas em japonês. Produtos importados, que geralmente trazem a lista em inglês, costumam ter o texto coberto com etiquetas em japonês. Mesmo quem estuda o idioma enfrenta dificuldade, já que os rótulos muitas vezes omitem detalhes – por exemplo, peixe pode estar presente, mesmo que não listado, se não for um dos principais alérgenos.
O site Savvy Tokyo oferece um guia com os kanjis mais comuns em ingredientes de origem animal. Já o blog “Is it Vegan? (Japan)” é uma ferramenta essencial. Ele traz informações sobre produtos disponíveis em supermercados, lojas de conveniência, festivais, aeroportos, hotéis e redes de fast food. O destaque é a seção de combini, a mais acessada pelos leitores.
Redes sociais também são úteis. O grupo Vegan Japan ヴィーガン日本, com mais de 26 mil membros, é um espaço para trocar informações sobre produtos e restaurantes. Há ainda grupos específicos por região, como Tóquio, Kyoto e Okinawa.
Termo “vegano” ainda pouco conhecido
No Japão, o termo “vegano” não é amplamente compreendido. Muitas pessoas confundem com vegetarianismo e acreditam que vegetarianos comem peixe, o que pode gerar confusão ao fazer pedidos em restaurantes. Além disso, há uma tendência da mídia japonesa em tratar o veganismo apenas como uma escolha de saúde, ignorando os aspectos éticos envolvidos.
Por isso, a dica é andar com um bilhete explicativo, em japonês, informando claramente o que você não consome. Veja um exemplo:
私はヴィーガンです。動物性の食材は食べません。ヴィーガン対応の料理や商品はありますか?
以下のものを使っていない料理があれば教えてください:
肉(牛肉、豚肉、鶏肉 など)
魚(魚介類、カツオ出汁、煮干し など)
卵
乳製品(牛乳、チーズ、バター、ヨーグルト など)
はちみつ
Tradução:
“Sou vegano(a) e não consumo ingredientes de origem animal. Há pratos ou produtos veganos disponíveis? Por favor, me avise se houver opções que não contenham: carne (boi, porco, frango), peixe (frutos do mar, caldo de peixe, peixe seco), ovos, laticínios (leite, queijo, manteiga, iogurte) e mel.”
Essa abordagem direta evita mal-entendidos e facilita a comunicação com atendentes e cozinheiros.
O futuro do veganismo no Japão
Apesar das dificuldades, há sinais positivos. Desde 2019, políticos e grupos ligados ao tema passaram a discutir, em nível nacional, formas de tornar o Japão mais amigável ao veganismo. Grandes redes como Coco Ichibanya, Royal Host e Ramen Kagetsu Arashi passaram a incluir opções sem ingredientes de origem animal em seus cardápios após os Jogos Olímpicos de 2020.
Para fortalecer esse movimento, ações simples fazem a diferença. Comprar produtos veganos incentiva sua permanência no mercado. Petições como a da Vegan Consumer Japan, que já conta com milhares de assinaturas, pressionam por mais opções e melhor rotulagem. Também é possível apoiar ONGs como a VegeProject Japan, que atua na certificação de produtos veganos e colabora com empresas, escolas e comércios. A organização aceita doações a partir de ¥500 e mantém uma lista atualizada de produtos aprovados.
Cenário em construção
Ser vegano no Japão exige paciência, preparação e uma dose extra de atenção. No entanto, cada vez mais recursos e opções estão se tornando disponíveis. O cenário ainda está em construção, mas com pequenas atitudes e o apoio da comunidade, o veganismo no Japão vem ganhando força. Viajar ou morar no país sem abrir mão de seus princípios já é, definitivamente, uma realidade possível
Fonte: Savy Tokyo